quinta-feira, 14 de maio de 2026

Das coisas consideradas pequenas

 


Como sempre falo com meus alunos, meus 51 anos me dão o direito de ser um pouco “tia velha” e abordar assuntos decorrentes de experiências vividas. Não que eu seja o dono da verdade (lembrando um velho ditado – a verdade é um imenso diamante, e só podemos ver algumas de suas facetas de acordo com nossa posição perante ela), mas até mesmo pela vontade de ajudar as pessoas queridas à minha volta. Ajudar, Ricardo Portela, não estaria sendo prepotente de novo? Talvez não, por um fato importante. Pessoas inteligentes aprendem com seus erros. Pessoas com déficit cognitivo repetem, repetem, e repetem seus erros, sem aprender com eles. Pessoas PERSPICAZES conseguem visualizar os erros de outras pessoas, ligar os pontos, e não passar pelos erros para poder aprender.

 

A disponibilidade de quase tudo, na atualidade, e em muitos momentos, torna banais tanto pessoas quanto coisas.  Tudo se torna muito fácil de obter; tudo pode vir (e ir!) com extrema facilidade, e chegar ao momento final, ao ápice, ao êxtase torna o período de busca curto e até rápido demais. E chega no momento em que as conquistas são tão fáceis, tão alcançáveis, que são rapidamente desfrutadas, e a busca, que foi rápida e frugal, torna o conquistado banal – o famoso “não valorizamos aquilo que vem fácil”. E como tudo pode vir fácil, algo melhor do que foi conquistado, melhor do que se tem, é também tão facilmente alcançável que acaba concorrendo com a desvalorização do que se tem. Percorremos grandes distâncias, antes difíceis de galgar e mais custosas, mas agora disponíveis e mais baratas, em busca da excelência, do primor. Rapidamente enjoamos, prontamente o conquistado perde prioridade e importância. Os defeitos do conquistado, antes pouco relevantes e pouco notados, passam a ser o ponto principal e a incomodar de forma até mesmo insuportável.

 

Ficamos então viciados no grande, no melhor, no mais impactante, no mais vultoso, no mais prazeroso. Uma consequência, até quem sabe, de nossa sociedade consumista, que cobra cada vez mais e com mais frequência. Como seres humanos predispostos ao vício, procuramos então o grande, depois o imenso, depois o gigantesco e, quem sabe, o de proporções galácticas, caso esteja disponível. Nada mais passa a satisfazer. O que se tem passar a ser pequeno, rotineiro, as doses precisam ser cada vez maiores. A insatisfação torna-se constante, e a agonia e o desespero tomam conta.

 

Teria alguma forma, algum jeito, algum caminho, para evitar isso? Pode ser difícil, já que seria algo ligado à nossa natureza humana, e ao ambiente em que vivemos (e ao que este ambiente nos cobra). Mas o que tenho visto é que pessoas mais simples, que precisam lutar muito para alcançar seus objetivos, tendem a viver uma busca mais longa e, com isso, visualizam a sua conquista como um fruto de uma árdua jornada. E é comum que as conquistas destas pessoas sejam consideradas “pequenas” ou “casuais”, e muitos indivíduos, tomados pela soberba, desprezam essas conquistas. Um exemplo: uma vez, almoçando num restaurante, olho para a mesa ao lado e vejo uma família comendo uma pizza. A voz do diabinho: “Pizza para almoço? Será porque é o mais barato do cardápio?”. Felizmente, a voz do anjinho veio logo em seguida: “Olha o rosto do pai, como ele está feliz e orgulhoso de poder oferecer isso à sua família. Olha as feições das crianças, tão felizes por estarem comendo esta pizza”. Ok, Ricardo Portela, você merecia essa bofetada na cara, esse wake-up call.

 

E aí, apresentam-se as coisas ditas “pequenas”, triviais, comuns, rotineiras, cotidianas. Essa rotina muitas vezes praguejada e mal falada. Esse cotidiano muitas vezes visualizado como massacrante. Essas coisas pequenas, tão fáceis de alcançar, tão fáceis de fazer. Mas, já parou para ver o que tem por trás delas? Já parou para tentar visualizar seu significado? Já parou para verificar o quanto de tempo, trabalho e dedicação pessoal foram necessários para chegar até ela?

 

Exemplos?


- Dar ou responder um bom dia de forma cordial (mas não exagerada, porque tem muita gente que não é morning people, como eu, e que não acordam lá tão pacientes para manifestações efusivas);

- Um elogio (a pessoas com as quais se tenha grau de convivência ou intimidade que permita elogios) a um cabelo diferente, uma roupa bonita, um novo tom de esmalte, um calçado. Já vivi situações onde um breve elogio iluminou o rosto de uma pessoa, a qual depois veio me agradecer porque aquele pequeno;

- Já percebeu como é bonito, ao comer em um restaurante, dar pequenas garfadas do que se está comendo para a pessoa que te acompanha? Já notou como esse gesto expressa intimidade? Já verificou o quanto a carinha que a pessoa faz ao ir comer aquela garfada remete a um bebê comendo?

- Passar aquela mensagem fortuita dizendo o quanto você ama aquela pessoa, o quanto ela é importante para você e o quanto ela faz parte da sua vida? Do nada mesmo, de surpresa, quando bate aquela intuição e aquela lembrança boa da pessoa;

- Fazer algo considerado simples, como um queijo quente ou uma omelete, mas feito com carinho, dedicação e afeto, que vai expressar o quanto você se dedica àquela pessoa, o quanto você quer fazer algo de bom para ela e o quanto você se importa;

- Um pequeno afago ao condutor quando se está no banco do carona, uma mão com a mão, dizendo “estou aqui ao seu lado”, expressando a satisfação de estar vivendo aquele momento (mesmo “pequeno”) com quem está junto a você;

- Quando quem está junto a você está doente, mesmo com uma “simples” gripe, que tal tomar conta da pessoa, dar as devidas medicações, cuidar da alimentação e fazer aqueles pequenos exames caseiros, como temperatura, pressão, entre outros. Isso expressa dedicação, isso expressa entrega.

 

Simplicidade, meninos. Dizem que os melhores perfumes vêm nos menores frascos, e eu, como admirador de perfumes, sei que muitos dos mais caros só estão disponíveis em frascos pequenos.   Talvez, ao dar um passo menor, fazer uma pequena parada e avaliar o que se tem, o que se conquistou e a demanda que houve para conseguir aquilo, isso faça você dar mais valor ao que tem. Claro, com certeza, ninguém quer pregar aqui o conformismo barato ou mesmo dizer que não se lute para alcançar o melhor. O que quero sugerir é que pode-se evitar o vício e a agonia constante de alcançar o patamar maior no momento em que é dada uma pausa, é feita uma boa olhada em volta e é avaliado o significado que reveste muitas coisas; pode-se então ter uma base mais sólida e tranquila para poder posteriormente galgar maiores saltos.

 

Bom, meninos, vou nessa. Tarja preta bombando na cabeça. Deixo todos com meu mais cordial desejo de boas jornadas em seus caminhos.

 

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