Como sempre falo com meus alunos,
meus 51 anos me dão o direito de ser um pouco “tia velha” e abordar assuntos decorrentes
de experiências vividas. Não que eu seja o dono da verdade (lembrando um velho
ditado – a verdade é um imenso diamante, e só podemos ver algumas de suas
facetas de acordo com nossa posição perante ela), mas até mesmo pela vontade de
ajudar as pessoas queridas à minha volta. Ajudar, Ricardo Portela, não estaria
sendo prepotente de novo? Talvez não, por um fato importante. Pessoas
inteligentes aprendem com seus erros. Pessoas com déficit cognitivo repetem,
repetem, e repetem seus erros, sem aprender com eles. Pessoas PERSPICAZES
conseguem visualizar os erros de outras pessoas, ligar os pontos, e não passar
pelos erros para poder aprender.
A disponibilidade de quase tudo,
na atualidade, e em muitos momentos, torna banais tanto pessoas quanto coisas. Tudo se torna muito fácil de obter; tudo pode
vir (e ir!) com extrema facilidade, e chegar ao momento final, ao ápice, ao
êxtase torna o período de busca curto e até rápido demais. E chega no momento
em que as conquistas são tão fáceis, tão alcançáveis, que são rapidamente
desfrutadas, e a busca, que foi rápida e frugal, torna o conquistado banal – o famoso
“não valorizamos aquilo que vem fácil”. E como tudo pode vir fácil, algo melhor
do que foi conquistado, melhor do que se tem, é também tão facilmente alcançável
que acaba concorrendo com a desvalorização do que se tem. Percorremos grandes
distâncias, antes difíceis de galgar e mais custosas, mas agora disponíveis e
mais baratas, em busca da excelência, do primor. Rapidamente enjoamos, prontamente
o conquistado perde prioridade e importância. Os defeitos do conquistado, antes
pouco relevantes e pouco notados, passam a ser o ponto principal e a incomodar
de forma até mesmo insuportável.
Ficamos então viciados no grande,
no melhor, no mais impactante, no mais vultoso, no mais prazeroso. Uma consequência,
até quem sabe, de nossa sociedade consumista, que cobra cada vez mais e com
mais frequência. Como seres humanos predispostos ao vício, procuramos então o
grande, depois o imenso, depois o gigantesco e, quem sabe, o de proporções
galácticas, caso esteja disponível. Nada mais passa a satisfazer. O que se tem
passar a ser pequeno, rotineiro, as doses precisam ser cada vez maiores. A
insatisfação torna-se constante, e a agonia e o desespero tomam conta.
Teria alguma forma, algum jeito,
algum caminho, para evitar isso? Pode ser difícil, já que seria algo ligado à
nossa natureza humana, e ao ambiente em que vivemos (e ao que este ambiente nos
cobra). Mas o que tenho visto é que pessoas mais simples, que precisam lutar muito
para alcançar seus objetivos, tendem a viver uma busca mais longa e, com isso,
visualizam a sua conquista como um fruto de uma árdua jornada. E é comum que as
conquistas destas pessoas sejam consideradas “pequenas” ou “casuais”, e muitos
indivíduos, tomados pela soberba, desprezam essas conquistas. Um exemplo: uma
vez, almoçando num restaurante, olho para a mesa ao lado e vejo uma família
comendo uma pizza. A voz do diabinho: “Pizza para almoço? Será porque é o mais
barato do cardápio?”. Felizmente, a voz do anjinho veio logo em seguida: “Olha o
rosto do pai, como ele está feliz e orgulhoso de poder oferecer isso à sua
família. Olha as feições das crianças, tão felizes por estarem comendo esta
pizza”. Ok, Ricardo Portela, você merecia essa bofetada na cara, esse wake-up
call.
E aí, apresentam-se as coisas
ditas “pequenas”, triviais, comuns, rotineiras, cotidianas. Essa rotina muitas
vezes praguejada e mal falada. Esse cotidiano muitas vezes visualizado como massacrante.
Essas coisas pequenas, tão fáceis de alcançar, tão fáceis de fazer. Mas, já
parou para ver o que tem por trás delas? Já parou para tentar visualizar seu
significado? Já parou para verificar o quanto de tempo, trabalho e dedicação
pessoal foram necessários para chegar até ela?
Exemplos?
- Dar ou responder um bom dia de
forma cordial (mas não exagerada, porque tem muita gente que não é morning
people, como eu, e que não acordam lá tão pacientes para manifestações
efusivas);
- Um elogio (a pessoas com as
quais se tenha grau de convivência ou intimidade que permita elogios) a um cabelo
diferente, uma roupa bonita, um novo tom de esmalte, um calçado. Já vivi
situações onde um breve elogio iluminou o rosto de uma pessoa, a qual depois
veio me agradecer porque aquele pequeno;
- Já percebeu como é bonito, ao
comer em um restaurante, dar pequenas garfadas do que se está comendo para a
pessoa que te acompanha? Já notou como esse gesto expressa intimidade? Já
verificou o quanto a carinha que a pessoa faz ao ir comer aquela garfada remete
a um bebê comendo?
- Passar aquela mensagem fortuita
dizendo o quanto você ama aquela pessoa, o quanto ela é importante para você e
o quanto ela faz parte da sua vida? Do nada mesmo, de surpresa, quando bate aquela
intuição e aquela lembrança boa da pessoa;
- Fazer algo considerado simples,
como um queijo quente ou uma omelete, mas feito com carinho, dedicação e afeto,
que vai expressar o quanto você se dedica àquela pessoa, o quanto você quer
fazer algo de bom para ela e o quanto você se importa;
- Um pequeno afago ao condutor
quando se está no banco do carona, uma mão com a mão, dizendo “estou aqui ao
seu lado”, expressando a satisfação de estar vivendo aquele momento (mesmo “pequeno”)
com quem está junto a você;
- Quando quem está junto a você
está doente, mesmo com uma “simples” gripe, que tal tomar conta da pessoa, dar
as devidas medicações, cuidar da alimentação e fazer aqueles pequenos exames
caseiros, como temperatura, pressão, entre outros. Isso expressa dedicação,
isso expressa entrega.
Simplicidade, meninos. Dizem que
os melhores perfumes vêm nos menores frascos, e eu, como admirador de perfumes,
sei que muitos dos mais caros só estão disponíveis em frascos pequenos. Talvez,
ao dar um passo menor, fazer uma pequena parada e avaliar o que se tem, o que
se conquistou e a demanda que houve para conseguir aquilo, isso faça você dar
mais valor ao que tem. Claro, com certeza, ninguém quer pregar aqui o
conformismo barato ou mesmo dizer que não se lute para alcançar o melhor. O que quero sugerir é que pode-se evitar o vício e a agonia constante de alcançar o patamar maior no momento em que é dada uma pausa, é feita uma boa olhada em volta e é avaliado o significado que reveste muitas coisas; pode-se então ter uma base mais sólida e tranquila para poder posteriormente galgar maiores saltos.
Bom, meninos, vou nessa. Tarja
preta bombando na cabeça. Deixo todos com meu mais cordial desejo de boas
jornadas em seus caminhos.

